A crise, a reforma da Previdência e o fator Henrique Meirelles – Por Fernando Schuler

Há um paradoxo no Brasil atual. Do ponto de vista econômico, andamos bem. O País tem uma agenda. Aprovou a PEC limitando o gasto público, acertou o passo no ajuste fiscal, reduz juros de modo gradativo e sustentável. A inflação anualizada caiu de 10,3% para 4,7% em apenas um ano. É evidente que ainda não chegamos lá, mas o Brasil voltou a frequentar o radar de investidores externos e o risco-país voltou a patamares pré-crise. Goste-se ou não de Michel Temer, é preciso reconhecer que seu governo é um sucesso na área econômica.

O mesmo não acontece na área política. Temer tem mostrado força no Congresso e até agora aprovou tudo a que se propôs. É possível especular que a proximidade das eleições tenha um efeito dispersivo sobre a base, mas não é este o ponto. O mal-estar da política vem da Lava-Jato e seu sistema de Trial by media. O Brasil vive o processo da “condenação difusa”. Espécie de post truth aplicada à vida política. O sujeito “citado” é “delatado”. “Delatado” é “investigado”.

“Investigado” é “condenado”.  Todos, quase sem exceção, são suspeitos. As coisas serão assim até o final do governo. Não tem jeito. Temer pode ver o PIB crescer 3 ou 4% em 2018, mas dificilmente será um presidente popular. Ele parece saber disso. Arrisco dizer que ele tem nisso a sua libertação. Livre da necessidade de ser popular, pode pensar com alguma convicção sobre seu lugar na História.

Há, porém, nisso tudo, um elemento paradoxalmente positivo: sendo impopular e matando no peito a incerteza política, ele permite que seu Primeiro Ministro Henrique Meirelles siga em frente. Dia atrás escutei de um parlamentar experiente esta impressão: são as crispações da Lava Jato que permitem que a equipe econômica avance. As delações do dia, as especulações sem fim envolvendo Padilha, Renan, Jucá, Moreira Franco, produzem uma paradoxal rede protetora que permite que siga em frente o ajuste das contas públicas e o debate das reformas.

São impressões. O fato é que o debate da reforma da Previdência vai avançando. Há consenso, no mundo sério da economia e dos negócios, que o País precisa fazer a reforma, e há uma crescente convicção no mundo político de que ela é factível. O PT e seus aliados fazem alguma gritaria mas não se vê uma só mobilização de rua que vá além da militância dos sindicatos. O País parece envolvido em um grande espetáculo: todos sabem que a reforma é necessária, que o déficit do regime geral já passou dos R$ 150 bilhões e ameaça colocar por terra o limite do gasto público aprovado com a PEC 55. Há desconforto, há gente fazendo discurso, nas redes sociais, mas há a percepção de que a hora chegou.

Mais: ao contrário do que imagina o senso comum, o momento é bom para aprovar a reforma. Com desemprego em torno de 11%, é clara a percepção de que medidas duras precisam ser tomadas. O Brasil viveu a ilusão do crescimento fácil e indolor à época do boom das commodities, na segunda metade da década passada. Perdemos um década ampliando o gasto público, contratando funcionários, abrindo estatais e estimulando o endividamento das famílias. A conta chegou em 2013 e seu custo, para o País, é uma queda de 7,2% do PIB em dois anos. A reforma está longe de ser simplesmente uma meta do presidente Temer. É um desafio brasileiro.

Vou mais longe: aprovada a reforma da Previdência, Henrique Meirelles inscreve seu nome como candidato competitivo, em 2018. Ainda que lhe falte carisma popular, Meirelles vem se afirmando como um líder discreto e capaz de produzir consensos em um País dividido. Eleito deputado pelo PSDB, dirigiu o Banco Central em dois mandatos do PT e agora comanda a política econômica do governo do PMDB. Tem um irretocável currículo executivo e soube conduzir reformar inéditas em nossa história recente. Dispensá-lo de considerações eleitorais é um luxo que o País não deveria se permitir.

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