Eleições presidenciais: a busca de um lugar ao centro

Os extremos da eleição presidencial estão bem definidos: Bolsonaro de um lado e os “órfãos” de Lula no outro. Resta saber quem terá os votos dos eleitores que buscam outro caminho, com moderação e estabilidade.

Além da própria disputa eleitoral para a Presidência em outubro, há um fato que mobiliza as atenções e desafia os analistas políticos. Diante da alta rejeição dos candidatos dos extremos, o posto de candidato moderado, que esteja ao centro, ainda não foi ocupado.

Isso representa uma oportunidade valiosa para algum nome cair no gosto do eleitorado – a ponto de se alçar ao cargo mais importante da República. Seria alguém que, mais à esquerda ou à direita, mas não muito distante do miolo, galvanizasse os votos e fizesse frente à direita representada pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) e à esquerda personificada provavelmente por algum político apoiado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O contexto político brasileiro é de polarizações e de desgastes provocados por decepções e episódios de corrupção. No entanto, os extremos têm seus tradicionais votos cativos, mas também contam com forte resistência do eleitor. Os pretendentes buscam o discurso adequado, algo que poderia ser resumido, nas palavras da consultora política da Associação Latino-americana de Consultores Políticos (Alacop) Gil Castillo, como “apaziguamento” e “luz no fim do túnel”.

Entre os nomes bem cotados para ocupar o espaço no centro e da tão desejada ponderação, estava especialmente o de Joaquim Barbosa (PSB). Ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF), era visto como exemplo de honestidade, preparo intelectual e perseverança, por ser um homem negro e pobre que superou barreiras socioeconômicas e chegou ao mais alto posto do Judiciário. Mais: Barbosa, filiado ao PSB em 6 de abril com aparentes intenções eleitorais, é o magistrado que levou à cadeia a maioria dos políticos envolvidos no escândalo do Mensalão. Parecia a solução para as dúvidas e os impasses eleitorais de muitas pessoas. Em 8 de maio, porém, pouco mais de um mês após ter se filiado ao PSB, ele surpreendeu a todos ao repentinamente encerrar o assunto em manifestação nas redes sociais. Anunciou, no Twitter, que não será candidato.

Humberto Dantas, cientista político e coordenador do Master em Liderança e Gestão Pública, diz que “o cenário está muito aberto, e, neste instante, o comportamento do eleitor nas pesquisas não permite cálculos muito precisos em termos analíticos”.

A respeito especificamente de Barbosa, Dantas analisa: “Temos vários símbolos associados a essa desistência. A primeira questão é compreender que tipo de narrativa Joaquim Barbosa imprimiria à campanha e que imagem estava associada a ele no eleitorado que o oferta cerca de 10% na primeira pesquisa em que ele foi testado este ano. É bastante provável que esse público o esteja relacionando a dois fenômenos: um suposto bastião do combate à corrupção e uma novidade no cenário político que transmita um mínimo de equilíbrio – que seria testado ao longo da campanha, naturalmente.”

Mas fica a dúvida: o que ocorrerá com os votos que estariam se dirigindo ao ex-ministro do STF e que já o colocavam como a novidade, como o outsider competitivo?

“É provável que parte desse eleitorado regresse para o campo dos indecisos, brancos e nulos”, aponta Dantas. Para ele, uma parte desse eleitorado pode se afeiçoar a Barbosa por três razões. “A primeira é ideológica, e entendo que esse ponto pese menos neste instante em relação a ele, mas aqui teríamos um candidato de centro ou centro-esquerda. A segunda, por questões de novidade. E a terceira, por razões de um suposto equilíbrio. No campo ideológico, a tendência é que essa parcela olhe para Ciro Gomes (PDT) ou Marina Silva (Rede), mas no campo da ‘novidade’ pode olhar para Bolsonaro.”

Em busca de um forasteiro

A figura do outsider como uma terceira via é vista como recorrente pelo cientista político, que cita, em eleições passadas, os nomes de Enéas Carneiro em 1994, Heloísa Helena em 2006 e mesmo Marina Silva mais recentemente. O risco, diz ele, é que alguns desses personagens “pegam”, e outros “se tornam insignificantes ou figuras quase folclóricas”. Mas Dantas alerta ainda para um detalhe: é necessário que se inicie a campanha eleitoral, efetivamente, para se estabelecer o peso dos partidos nesse jogo. “Alckmin não deve decolar apenas porque é de centro-direita e vai se vender como moderado. Ele deve ter estrutura partidária para se descolar. Marina não tem estrutura partidária alguma e pode até sumir ou minguar. Essa eleição tem algo muito interessante nesse instante: é provável que a campanha comece com dois candidatos partidariamente desestruturados liderando a corrida: Marina e Bolsonaro”. Caso isso ocorra, segundo ele, “é sinal de que estamos mesmo cansados e buscando alternativas a velhas soluções”. Por outro lado, se “Alckmin e Ciro decolarem, é provável que confirmemos a ideia de que partido, por mais desgastado que seja, tem peso expressivo com suas estruturas e recursos eleitorais”.

O fato é que a desistência de Barbosa mexeu com o tabuleiro, deixou um espaço vazio e abriu perspectivas de novos movimentos das peças. Quem votaria em alguém com seu perfil pode acabar migrando para progressistas, como Marina, Ciro, Guilherme Boulos (PSOL) e até eventualmente Fernando Haddad (PT). O perfil de radical no combate à corrupção de Barbosa, caso ele concorresse, tiraria votos até de Bolsonaro, em razão da imagem moralista e, de certa forma, apolítica.

Em um primeiro momento, os candidatos aparentemente mais favorecidos são os ditos de centro, que não vêm conseguindo boa performance nas pesquisas e poderiam pegar o espólio do ex-magistrado. É o caso de Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Rodrigo Maia (DEM) e a própria Marina, terceira colocada na eleição de 2014, atrás de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), em relação a quem já se apresentava como uma espécie de terceira via. Há ainda, além desses pré-candidatos, nomes como os de Flávio Rocha (PRB, empresário de perfil liberal na economia e conservador nos costumes) e João Amoêdo (Novo), que tendem a adotar discursos moderados para atrair o voto de uma classe média sem norte.

Nesse contexto, Ciro Gomes pode seguir dois tons diferentes: caso seja o candidato de Lula e tenha Haddad como vice, seu discurso será mais extremo, em razão dos compromissos assumidos. Caso não se alie ao PT, a tendência é de que seu discurso também busque uma descontaminação dos atuais embates e procure o centro.

Campanha curta e cenário nebuloso

Guilherme Simões Reis, cientista político da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), se confessa “surpreso” pela desistência de Barbosa e constata um impasse.

“Por não ser identificado nem com esquerda em com direita e ser visto como ‘não político’, como por ter imagem de honesto e corajoso, Barbosa teria grande potencial de receber votos de eleitores menos politizados”, afirma. ”Por outro lado, acredito que, confirmado o mais que provável impedimento de Lula, favoritíssimo em todas as pesquisas, a tendência é de proliferação de candidaturas, tanto na esquerda como de outsiders. Nesse cenário, candidaturas não claramente identificadas como de esquerda ou como de direita têm grande possibilidade de, se chegar no segundo turno, receber votos estratégicos, isto é votos ligados à rejeição ao adversário”.

Reis identifica um “apelo enorme” dos candidatos vistos como “não políticos”. O motivo, segundo ele, é a “criminalização da política”.

“É por esse motivo que muitos partidos mudam de nome tirando a palavra ‘partido’ e que tantos políticos, mesmo que muitas vezes com longa passagem por Executivo ou Legislativo, tentem passar a imagem de empresários, de técnicos, de gestores, de cidadãos ‘contra tudo o que está aí’”, completa o cientista político da UniRio.

Em razão de todos esses sentimentos de rejeição à política tradicional e seus modos, o cientista político Gustavo Grohmann, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), vê um quadro “difícil”, por ser ainda muito nebuloso.

“Como a campanha é curta, os nomes com visibilidade são os que já estão na mídia. Tavez o desempenho na campanha seja definidor, conforme os recursos e discursos que forem feitos. Bolsonaro agora até diminuiu o tom, porque quer ampliar seu eleitorado. E, pelo lado da esquerda, não há clareza sobre quem tem chances reais. E o centro tem problemas, também. Alckmin deveria superar ter voto apenas em São Paulo. Deveria ter no Brasil inteiro. O resto são apostas”, diz.

Reconhecendo que o “prognóstico” é “difícil”, Grohmann manifesta uma certeza, que não deixa de ser também uma recomendação aos pretendentes à Presidência: “Os candidatos devem apenas fazer uma coisa: concorrer com toda a força, porque o espaço está para ser ocupado”.

Paulo Baía, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que, chegada a metade do ano, são escassas as possibilidades de nomes novos e surpreendentes.

“Com a desistência de Joaquim Barbosa, já no mês de maio, não teremos um nome novo. Os nomes para a sucessão presidencial em outubro de 2018 são os que estão postos. É importante frisar que a desistência de Joaquim Barbosa favorece as candidaturas de Geraldo Alckmin, principalmente se ele fizer uma aliança com o MDB, e também a candidatura de Ciro Gomes, dentro do espectro que Barbosa representava de cruzar a linha da centro-direita à centro-esquerda. Ao mesmo tempo, não afeta a candidatura de Bolsonaro, que, pelo contrário, se privilegia também pela desistência de Barbosa. Os outros não se movimentarão”, diz ele.

A respeito dos demais nomes, Baía diz, por exemplo, que Marina tem um “problema sério”: “ela tem um partido sem estrutura, não terá tempo de televisão nem recursos do fundo eleitoral.

“Marina ficará restrita a sua campanha. Ciro Gomes, não. Ele tem tempo de televisão médio, recursos com o PDT e a possibilidade de alianças que ampliem essa perspectiva”, compara.

Já Alckmin ele vê com boas perspectivas de crescimento, porque já tem bastante tempo de TV e fundo eleitoral. Seria um candidato de centro que, caso consiga alianças com o MDB e o DEM, passará a contar com aquilo que define como “latifúndio” de exposição televisiva.

Eleitor indignado e apático

“A eleição de 2018, com elevado índice de rejeição, com a apatia da população e com a indignação sobretudo em razão da corrupção da classe política, terá um número muito elevado de votos brancos e nulos e uns 12% de abstenção. Somando isso com os votos nulos e brancos, tenho calculado em 50%, podendo ser 48% ou 52%, dos votos não válidos na eleição, o que reduz o colégio eleitoral à sua metade. Isso facilita muito a vida de Geraldo Alckmin, de Ciro Gomes e de quem tenha alguma máquina partidária. Nesse sentido, o candidato que vier apoiado pelo Lula, pelo PT, também tem tempo de televisão e fundo eleitoral”, analisa Baía.

Segundo ele, a movimentação a que temos de prestar atenção agora é como vão se comportar PP, PR, PTB e PRB. “São partidos de porte médio, também com tempo de televisão e recursos do fundo eleitoral. Acho errado chamar as candidaturas do Alckmin ou do Ciro como de centro, mas eles vão buscar esse discurso, de serem os candidatos de centro, porque esse espectro político está, efetivamente, sem um candidato. Você tem candidatos de máquina partidária, como o Alckmin ou do Ciro, e candidatos sem máquina que é o caso do Bolsonaro, que se prejudicará em sua campanha por não ter tempo de televisão nem fundo eleitoral para financiamento de campanha”.

A respeito de Bolsonaro, Baía faz uma ressalva. Acredita que ele pode crescer durante a campanha “se fizer aliança com o PR, se o vice dele for o Magno Malta, senador do Espírito Santo”.

O raciocínio se ampara em elementos utilitários: “Se Bolsonaro fizer essa aliança com o PR, ganha tempo de televisão e recursos do fundo eleitoral”. Essa é a chance de Bolsonaro ultrapassar as suas próprias barreiras.

Mas os analistas são unânimes em ver o centro como o espaço a ser ocupado e como o discurso a ser proposto para seduzir o eleitor cansado do modo de se fazer política, da corrupção generalizada e da rispidez do debate. Ressalvas como a de que o tempo de mídia televisiva e os recursos financeiros são relevantes trazem raciocínios que permeiam todas as eleições. Nesta, porém, há peculiaridades, e o discurso de centro tem grandes possibilidades de ser decisivo, em razão das circunstâncias de negação da política tradicional. O que falta é o protagonista, o candidato que pode assumir esse proselitismo em relação ao qual o cidadão comum e médio sente clara preferência.

Quem disputa os votos

De outsiders a tradicionais quadros da política, diversos candidatos querem a preferência do eleitor longe dos extremos. Confira o perfil dos principais presidenciáveis que devem disputar esse nicho de votos:

Marina Silva (REDE)

Bem posicionada nas pesquisas e com o recall de duas eleições, tem como desafio pouco tempo de TV e pequena estrutura partidária

Henrique Meirelles (MDB)

Embora seja um dos principais ministros de um governo extremamente impopular, a retomada da economia pode beneficiar a candidatura de Meirelles

Geraldo Alckmin (PSDB)

O ex-governador de São Paulo terá grande estrutura partidária – mas precisará lidar com a rejeição da política tradicional

Álvaro Dias (Podemos)

Embora sofra possível rejeição por ter sido do PSDB, o senador tenta a Presidência com um discurso moralizante e bem posicionado

Rodrigo Maia (DEM)

Demonstrou habilidade política na presidência da Câmara, mas precisará melhorar o desempenho nas urnas — pior a cada eleição

João Amoêdo (NOVO)

Poucos candidatos representam tanto a nova política. Resta saber se o discurso romperá a barreira do desconhecimento

Flávio Rocha (PRB)

De origem nordestina, o empresário bem-sucedido é um outsider que apoia o liberalismo, mas ainda mal pontua nas pesquisas

Paulo Rabello de Castro (PSC)

Após sair da presidência do BNDES, o economista circula bem em meios empresariais, mas segue desconhecido do público geral

O “vazio” deixado por Joaquim Barbosa

O cientista político José Álvaro Moisés, coordenador do Núcleo de Pesquisas de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), vê um “vazio” deixado por Barbosa. “A saída do ex-ministro Joaquim Barbosa da disputa eleitoral deixa um vazio em uma área extremamente importante sentida pela sociedade, que é a ausência de um nome de renovação, um outsider capaz de significar uma nova maneira de fazer política no Brasil. Embora Barbosa tenha falado menos do que se esperaria pra entender suas posições, havia grande expectativa e que ele pudesse cumprir esse papel, de ser a figura de renovação”, diz Moisés.

Outra peculiaridade da disputa eleitoral seria desnudada pela saída de Barbosa: “Diante do potencial de crescimento das candidaturas nos dois extremos, na extrema-direita e na extrema-esquerda, com Bolsonaro e Lula ou outros candidatos da esquerda, o centro está vivendo um dilema, que é o de se definir, se explicar. A única alternativa para que o centro se converta em uma força capaz de galvanizar votos que em tese estavam sendo direcionados para Barbosa é se os candidatos do centro, em particular Geraldo Alckmin, forem capazes de fazer uma relação com os temas fundamentais que Barbosa poderia significar. Ou seja, de um lado a questão do combate à corrupção, de uma perspectiva ética para conduzir a política brasileira, e, por outro lado, uma dimensão social, uma resposta à imensa desigualdade social que permanece no Brasil.”

É um “vácuo” deixado por Barbosa que precisa ser preenchido pelos candidatos de centro.

Foto: Montagem com fotos de Divulgação, WikiCommons, Câmara Municipal de João Pessoa, Alexandre Carvalho/A2img e Antonio Cruz, Fernando Frazão, Tomaz Silva e Wilson Dias/Agência Brasil

Publicado na edição de maio/junho da Revista Voto

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