Lava-jato e Teoria dos Jogos

Estamos assistindo a uma luta entre judiciário e o legislativo e o executivo. Nas guerras modernas existem convenções internacionais, regras institucionais, que levam à guerra a ser limitada e até a respeitar alguns preceitos morais básicos. Em conflitos normais estas regras são respeitadas, mas às vezes salta tudo. Atenas e Esparta as respeitaram, mas na guerra do Peloponeso virou guerra total. A situação atual é similar. Em épocas normais a classe política como um todo é mais compacta, os vários membros tem interesses diversos mas todos tem o interesse comum de permanecer no poder. Agora os acordos saltaram. É guerra total. Como terminará este conflito? É possível prevê-lo? A Teoria dos Jogos é uma útil abordagem que talvez pode lançar uma luz.

O dilema do prisioneiro (começamos com o jogo mais famoso) fala que se os agente não se delatassem reciprocamente (cooperassem) ninguém ficar na prisão, mas que de fato não é o que acontece pois cada agente teme a delação dos outros e aí decide delatar ele mesmo. Resultado os atores ficam numa situação pior, são descoberto e recebem uma sanção. Parece ser o que está acontecendo.

O Blotto Game simula uma guerra, ganha quem vence mais batalhas e ganha mais batalhas quem aloca mais soldados. A guerra é a supracitada, as batalhas são: abuso de poder, supersalários, cada uma das 10 medidas contra a corrupção, Curitiba contra Brasília, o embate Renan-Carmen Lucia, o processo contra Renan, o embate Renan-Marco Aurélio Mello, a desobediência do Renan, a decisão do juiz Fux, a checagem das assinaturas das medidas populares, o envolvimento do Temer, a questão Lula, etc. A guerra está sendo fatiada em varias batalhas, exatamente para tentar ganhar na margem, ganha quem vence mais batalhas, pois ninguém vencerá todas.

Claro, os dois grupos não irão se destruir reciprocamente totalmente, irão parar antes. Talvez neste caso se aplique o Jogo da Galinha. Exemplos deste jogo são alguns desafios perigosos que adolescentes de diversos lugares do mundo fazem ou fizeram. Por exemplo, nos Estados Unidos durante a década de 50 era moda apostar em uma corrida de carro até um abismo, onde perdia quem freava ou desviava antes. Em outro tipo de desafio, dois carros corriam na direção do outro. Perdia quem freava antes. A ideia aqui é que estando em jogo a vida, os agentes tendem a cooperar. O resultado mais desejado não seria ganhar o jogo, mas sobreviver, e só depois ganhar o jogo. Ou seja, os jogadores utilizam uma estratégia chamada maxi-min, tentando maximizar a opção menos arriscada. Tentar não ir para a prisão é muito mais importante que atacar a lava jato e perder as próximas eleições.

O judiciário atacou, legislativo e executivo foram pegos de surpresa, ficaram sem saber o que fazer, recuaram, começaram a se organizar, preparam o contrataque e contratacaram, agora estamos em plena guerra. Ambos sairão enfraquecidos como mostra o dilema do prisioneiro, um irá ganhar como mostra o blotto game, mas afinal cooperarão para não perder o que há de mais importante. Esta cooperação consiste em acordos, públicos e menos. Um dos dois deverá parar de atacar, deverá começar a fechar um olho. É o que Axelrod chama de tit-for-tat: os dois lados se atacam e retaliam, mas isso nunca vai parar, até quando um dos dois “perdoa”, pula um turno, para de atacar, para ver se o outro para também. Se outro não para e ataca ainda, aí haverá outra retaliação e continua, mas depois alguém de novo irá parar para ver, em algum momento o oponente também irá parar de atacar e se chegará em um equilíbrio, uma trégua, um acordo.

Não se engane quem acha (deseja na verdade) que terá uma “limpa gera”, não é possível, a limpa vai parar um certo momento, alguém sobreviverá e nos governará. As hostilidades terminarão, as investigações tem um começo e um fim e geralmente terminam antes do pote de ouro do arco-íris.

Neste ponto é melhor que o acordo seja bem feito. Precisa de dois fatores a) que o maior numero desta velha classe política se aposente e deixe espaço a uma nova geração; b) Mudar as principais regras que levaram a atual situação de patrimonialismo e corrupção difusa, todas aquelas regras que concentram o poder em poucas mãos, que aumentam a arbitrariedade, que geram privilégios e que afastam a classe política de nós súditos: fim do foro privilegiado, fim do financiamento público aos partidos, fim dos crimes de opinião (usados sempre só para calar inimigos políticos), fim do imposto sindical, privatização de todas as empresas estatais (usadas como armas políticas), etc.

E nos espectadores em tudo isso? Estamos no meio do tiroteio, é melhor se esquivar, quem sabe nesta briga de cachorro grande não melhore alguma vírgula aqui e outra ali.

Por Adriano Gianturco, Professor de Ciência Política Ibmec/MG

Crédito da Foto: Thiago Fernandes

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