A mãe-pátria da Croácia

Kolinda Grabar-Kitarović abraçou os compatriotas como se fosse a mãe do país na Copa do Mundo da Rússia. No palco da cerimônia de entrega das medalhas ou nas arquibancadas do estádio, a presidente croata esteve na mira das câmeras de todo o mundo e deu luzes ao perfil popular de quem pode concorrer à reeleição em 2019.

Embora a nação de 4,1 milhões de habitantes não tenha erguido a taça, a Croácia foi uma das maiores surpresas do certame. Perdeu a final, mas teve o apreço da crítica que reconheceu o alto nível técnico do time. O meio-campista Luka Modrić levou a Bola de Ouro, eleito o melhor da competição. No protocolo de premiação, debaixo do vento e da chuva, a chefe de Estado emocionou-se, sorriu e afagou um a um os 22 atletas que foram a alma identitária do seu povo em campo.

Em Zagreb, capital do país – entre a margem do Rio Sava e a encosta do monte Medvednic – os jogadores foram acolhidos por um coro tradicional: “Chame, apenas chame todos os falcões; eles darão a vida por você” (…). Milhares de croatas lotaram ruas e praças para festejar o vice-campeonato, com a alegria de quem teria ficado em primeiro lugar.

Não em vão Kolinda ganhou notoriedade nas manchetes e simpatia mundial. Viajou de avião em classe econômica e pagou do bolso as passagens e os ingressos para os jogos. Pelo entendimento de que os compromissos eram particulares e não de interesse coletivo, ordenou que descontasse do salário suas ausências nas agendas de governo. Antes de ser notada pela FIFA, assistia às disputas misturada aos torcedores, entre pulos e gritos de gol. Ela se identificou com as pessoas, ficou de igual para igual com os compradores dos 2,4 milhões de bilhetes vendidos na Rússia.

Segundo o portal de métricas Mediatoolkit, as postagens em mídias sociais sobre Kolinda durante a final superaram em 25% as menções de sua seleção. Agora que a vibração acalorada da Copa do Mundo passou, a chefe de Estado vive os reflexos de suas aparições como a personalidade mais popular do país.

 Política migratória restritiva

Jovem e pequena, a Croácia integra desde 2013 a União Europeia (UE) e Kolinda tem agitado o cenário político internacional com a visão de levantar cercas contra a imigração. A presidente, de 50 anos, não conseguiu levar adiante proposta de lei que transformava em criminosos os compatriotas que ajudassem a entrada de imigrantes ilegais. Há três anos, no entanto, período em que está no poder, tem sido linha-dura: estrangeiros em situação ilegal não podem receber cuidados do governo em relação à moradia, saúde e alimentação.

Por outro lado, luta pela volta dos expatriados. A população da Croácia não cresceu nas últimas três décadas. As taxas de natalidade são baixas e as razões para partir aumentaram principalmente desde a Guerra dos Balcãs, na década de 90.

Ela assumiu as rédeas do país em 19 de fevereiro de 2015, graças a uma vitória apertada (50,7%) no segundo tuno da disputa presidencial, candidatando-se pelo partido conservador União Democrática Croata. É a primeira mulher croata presidente, além de ter sido a pessoa mais nova a assumir o poder por lá.

Ela conquistou o eleitorado muito em função de seu perfil cosmopolita, que dialoga com sua história de vida política. Formada pela Universidade do Novo México, em Albuquerque no Estados Unidos, fala croata, inglês, português e espanhol. Também é PHD em Política pela Faculdade de Zagreb. Mãe de dois filhos, é casada e foi apontada pela Forbes em 2017 como a 39ª mulher mais poderosa do mundo.

No currículo, exibe vasta relação internacional: foi representante da Croácia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), de 2011 a 2014), embaixadora nos Estados Unidos entre 2008 e 2011, chanceler de 2005 a 2008 e ministra de Assuntos Europeus entre 2003 e 2005.

De olho no futuro

O cientista político Dejan Jović avalia as aparições da líder como uma estratégia inteligente de marketing capaz de guinar sua popularidade para a obtenção do segundo mandato. “Sua presença na Copa do Mundo definitivamente poderia ser descrita como um ato pré-eleitoral”, explica. O professor universitário ainda reitera que a chefe de Estado conseguiu através da atitude devolver otimismo em massa ao povo croata.

Hoje, todas as pesquisas do país indicam a mãe-pátria da Croácia – aplaudida com êxtase nas arenas de futebol – como favorita para corrida presidencial de 2019. Para oposicionistas políticos, ela é uma conservadora nacionalista. Para o resto do mundo, alegria internacional.

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