A ruína moral do Brasil em análise na VOTO

Não estão apenas na classe política nem só na elite empresarial os arquitetos da ruína moral do Brasil. Uma geração de líderes está na cadeia, ou a caminho dela, enquanto a imagem e a autoestima do país se degradam, e esse desfecho amargo para a Nação, órfã de representantes em quem confiar e espectadora do êxodo de jovens que desistiram de um projeto nacional, tem muitos responsáveis. Entre eles está um personagem oculto pelo anonimato, o “eleitor”, aquele com memória tão curta que tampouco lembra em quem votou na eleição passada. Também figura a imprensa. Na história recente, um consenso midiático acreditou em um discurso de mudança sem investir em uma apuração profunda sobre as relações por trás do pacto que sustentou esse projeto.

O organismo multifacetado traduzido como “opinião pública” concentra nos alvos da Lava Jato as mazelas da República sem atacar com a mesma intensidade práticas de corrupção sem rosto como os saques que se aproveitaram da greve dos policiais no Espírito Santo. Em resumo, é prioridade banir a corrupção e isso não se consegue se a sociedade deixa de fazer a sua mea culpa. Esta reportagem refaz a anatomia do malogro coletivo e busca caminhos para evitar a repetição dos erros que mergulharam o país em um vazio entre duas gerações, uma de velhos líderes desacreditados e a outra de potenciais líderes descrentes.

A ruína

“O indivíduo retroalimenta a corrupção.”
LEONARDO PAZ,
cientista político, professor da UFRJ

Em lugar da bem-vinda visão de liberdade individual, com igualdade de oportunidades e respeito às regras do jogo coletivo, viceja na sociedade um perigoso inço do individualismo. Manifesta-se pela negligência na relação com a política e pela facilidade da adesão à lei da vantagem desleal. As eleições municipais de 2016 tiveram 144.088.912 eleitores aptos a votar. Quantos desses estudaram o histórico e as propostas dos seus candidatos antes de pressionar o botão de confirma na urna? A desinformação mina o processo. É o caso de quem esquece em quem votou. É também o de quem se lembra, mas se sente traído por uma eventual posição adotada pelo eleito mas que era previsível. A maioria dos eleitores menospreza um ritual importante a cada dois anos, o de pesquisar sobre os candidatos. Normalmente, aposta no que lhe é prometido, e poupa esforço na busca de informação, ao atribuir à política pouca relevância.

“É um equívoco enorme, pois é através dela que se pode ter um pluralismo político, pessoas participando de uma vida decisória”, lembra Margarida Lacombe, professora de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Política é composição e alguma formação com adversários ideológicos é necessária, pois isso é pluralismo.”

Uma vez (mal) eleitos os candidatos, a ganância individual se manifesta em uma prática desigual, desleal, expressa na troca de favores por vantagens.

“O indivíduo retroalimenta a corrupção”, resume o cientista político Leonardo Paz, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  “Ele quer resolver o seu problema e, se para isso é necessário que ofereça alguma vantagem a alguém, assim irá fazer”, explica Paz, também coordenador de estudos e debates do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), professor no departamento de Relações Internacionais na Faculdade Ibmec e especialista do Instituto Millenium.

É um comportamento disseminado. Talvez isso ajude a explicar por que não apenas o presidente da Odebrecht, mas também oito dezenas de executivos da empresa (atuais ou antigos) participaram de uma delação premiada.

“A corrupção provocou uma metástase moral na sociedade”, constata o economista Roberto Fendt.
É uma crise de valores mais difícil de enfrentar do que a crise econômica. Esta é conjuntural, a outra estrutural. Compõe o cenário de fracasso do projeto educacional, cultural, social e político do Brasil. Nele habita um povo mal instruído, com baixa capacidade de discernimento das complexas ideologias que se apresentam, dos interesses dissimulados de grupos, de distorções da realidade provocada por notícias falsas, deturpadas ou pouco apuradas e, especialmente, falta de clareza do destino histórico da nação, do para onde iremos.

A sociedade reclama mas se omite na participação na política. Um exemplo é a dificuldade dos partidos de preencherem o mínimo de candidaturas femininas. Ainda que o machismo impere no ambiente político, o interesse das mulheres se mostra aquém do necessário para uma representação equilibrada.
A frouxidão da teia de valores favorece os incentivos negativos numa parcela grande da população posicionada no limite entre a legalidade e a ilegalidade. Como consequência, a corrupção se torna sistemática. Em paralelo, perde-se a identidade nacional. O Brasil hoje é um país vazio de argumentação, justificativas e sustentação ética e moral, fonte de mais violência e alienação.

A descrença

“Os jovens hoje são reféns de uma máquina praticamente intocável e intangível”,
FRANCISCO MARSHALL,
historiador, arqueólogo e professor da Ufrgs

Se o desencanto entre os adultos que um dia tiveram esperança no Brasil é grande, imagine entre os jovens. Chegam à idade de entrar no mercado de trabalho bem na hora da falência do projeto nacional. Na ausência dele, ganha força outro projeto, o de ir embora. “Os jovens hoje são reféns de uma máquina praticamente intocável e intangível”, lamenta Francisco Marshall, historiador, arqueólogo e professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Fica difícil inspirar o jovem a permanecer. Enquanto sofre com a crise econômica, olha para o Congresso e vê um percentual grande de cadeiras ocupada por parlamentares suspeitos de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e outros delitos. A dificuldade do jovem de enxergar uma perspectiva de vida melhor custa caro para o futuro do país. Tem intensificado a fuga de cérebros, um tema preocupante, a ponto de pautar uma audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado em 2 de junho passado. A  perda de profissionais altamente qualificados é um problema sério para o Brasil.

O quadro desperta, além de uma sensação de impotência em relação ao futuro do país, uma aversão à carreira política. Se o processo fosse mais transparente e confiável, uma parcela significativa deles se aproximariam da política – quase a metade (45%), segundo dimensionou a pesquisa O sonho brasileiro da política, realizada pela Box 1824. A empresa foi a campo entender o que moradores de sete capitais, na faixa etária entre 18 e 32 anos, pensam sobre sua própria atuação política. Eles se mobilizam a partir de causas, e elas costumam ser excluídas da pauta dos partidos.

Essa falta de sintonia distancia ainda mais o jovem das arenas institucionais da política. Ao perceber que só reclamar não adianta, criam seus próprios meios de ação e atuam em ONGS e outros projetos sociais.
O estudo alertou: “Não é o jovem que não quer saber da política. É essa política que ainda não sabe conversar com o jovem”.

A reconstrução  
“Nossa reconstrução passa pela mudança de valores e pela punição de quem comete um crime”,
ROBERTO FENDT,
economista

Para o Brasil emergir desse atoleiro não há saída fácil, e o resgate tem avanços e retrocessos. É necessário fortalecer a certeza de que as leis serão cumpridas e quem errar será punido. A Lava Jato dá esperança. Nunca se viu tanta gente poderosa presa,  indiciada e condenada. Grandes empresários, políticos e ex-políticos respondem por crimes de lavagem de dinheiro, entre outros delitos.

A cruzada contra a corrupção, protagonizada pelo juiz brasileiro, ajuda a limpar a imagem do Brasil no Exterior, tarefa ainda longe ser concluída. A missão é sabotada por episódios como o ocorrido na Universidade Columbia, em Nova York, em 6 de fevereiro, quando Moro, ovacionado ao subir ao palco, foi durante a palestra atormentado por manifestantes brasileiros, espalhados pela plateia. Eles interrompiam o juiz dizendo em inglês que ele não era bem-vindo à universidade. Quatro deles gritaram que os julgamentos feitos por Moro na Lava Jato eram “tendenciosos e partidários”. Outros carregavam cartazes que traziam a palavra “golpe”, e o rosto do juiz preenchia a letra “O”. A maior parte da plateia irrompeu em vaias para tentar calar os manifestantes, seis dos quais retirados do local. Duro é entender a lógica de, diante da sociedade americana, que abomina desonestidade, um grupo se sentir à vontade para protestar contra um símbolo anticorrupção.
Graças à percepção do fim da tolerância com falcatruas, há uma transformação visível no meio corporativo. Um termo ganhou relevo nas tendências de gestão: compliance. Vem do verbo em inglês “to comply”, ou seja, agir de acordo com a regra. Devastadas pelo efeito das operações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça, empresas passam a levar a sério, como estratégia de sobrevivência, adotar rigor no cumprimento das normas e investir energia em evitar, detectar e corrigir eventuais desvios.

Esse movimento ganhou força ainda em 2015, com o avanço das investigações. A falta da cultura da transparência se refletiu na ausência de um mercado suficiente para atender às necessidades dos novos tempos de governança. A procura expôs a escassez de profissionais qualificados. As empresas adotaram alternativas como o treinamento da própria equipe e até a busca de especialistas no Exterior.
No velho Brasil, o sistema em voga era uma adaptação nacional, o “anti-compliance” ou “compliance às avessas”. Assim procuradores do Ministério Público Federal apelidaram um sistema ilícito descoberto no Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht. Montado à parte da plataforma de principal da empreiteira, permitia “a comunicação secreta entre executivos, funcionários e doleiros responsáveis por movimentar os recursos espúrios” e assim facilitava pagamentos ilegais.

A cruzada pela transparência tem de avançar para levar de fato a uma renovação política, ressalta Francisco Marshall. É a forma de livrar o Brasil “da cleptocracia que está estável”.
A consolidação da nova cultura depende também do destino do pacote anticorrupção, elaborado pelo Ministério Público Federal e endossado por mais de 2,2 milhões assinaturas de apoio popular. Na calada da madrugada de 30 de novembro a Câmara deu uma mostra dos obstáculos a serem vencidos, ao aprovar o texto em regime de urgência com emendas que desfiguraram o teor original. Duas semanas depois, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar para anular a votação. O embate ainda segue.

Com a cultura de valores mais sólidos e a certeza da punição a quem comete delitos, a sociedade tem ainda o desafio da desigualdade social. “País desenvolvido com um nível tão grande de desigualdade social não existe, pois é contraditório”, observa Margarida Lacombe.

O economista Roberto Fendt resume: “Nossa reconstrução passa pela mudança de valores e pela punição de quem comete um crime”.

 

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