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Economia - 15/09/2013 - 10h48

Troyjo: Para os emergentes, creio que a principal lição da crise ainda será aprendida.

No comando do BRICLab na Universidade Columbia, em Nova York, um centro de estudos sobre Brasil, Rússia, Índia e China, Marcos Troyjo concentra seus estudos em relações internacionais, mercados emergentes, inovação e mudanças tecnológicas. De olho nos desafios que os países em desenvolvimento precisam enfrentar com a retomada de fôlego da economia americana, o economista e cientista político comenta as estratégias adotadas pelos Brasil para escapar da crise e conta porque a China sofre menos com as mudanças nos Estados Unidos.

Zero Hora - Depois de anos, os Estados Unidos começam a dar sinais de recuperação. Existe um clima de otimismo quanto aos rumos da economia ou ainda persiste um certo ceticismo quanto ao futuro?

Marcos Troyjo - Sinto que existe a percepção de que aqueles anos de "exuberância irracional", sobretudo a sensação de prosperidade sem limites que marcou os anos Clinton (1993-2000), não voltarão mais. O setor de manufaturas nos EUA passou por grandes sacrifícios. O segmento bancário agora tem de operar com regras mais restritivas e perdeu grande parte de seu glamour. Mas a resiliência da economia dos EUA não tem igual. A produtividade total dos fatores também impressiona. Por isso os EUA são a pátria da inovação, da propriedade intelectual, da emergência de novas tecnologias, da reinvenção. O clima hoje nos EUA é portanto de um bem temperado otimismo quanto ao futuro.

ZH - O pior da crise já passou?

Troyjo - Sim. As instituições econômicas, seja nos países mais maduros ou nos emergentes, estão mais blindadas tanto para crises de natureza hipotecária (epicentro da Grande Recessão de 2008), quanto para problemas como o serviço de dívidas soberanas — como o medo de uma moratória grega e de outras economias mediterrâneas. Mercados e governos estão mais cautelosos. Agora se fala que os emergentes estão vulneráveis, sobretudo a uma mudança no panorama mundial de liquidez com a eventual subida de juros nos EUA, pois a a economia americana já ensaia uma expansão mais sustentada e assim não necessitaria do afrouxamento monetário dos últimos anos. Porém, os grandes emergentes, como os Brics, têm reservas cambiais abundantes e são testados no manejo de crises. Assim, a economia global como um todo vai lenta e progressivamente se afastando de nuvens mais escuras.

ZH - Quais foram as cicatrizes que ficaram?

Troyjo - No nível macroeconômico, a importância da regulação e de mecanismos de vigilância atuantes. Nos EUA, a SEC (Securities and Exchange Commission) teve vários indícios da ingovernabilidade de alguns derivativos financeiros e também de operações fraudulentas como o "Esquema Ponzi" de Bernie Madoff, que levou muitas famílias à ruína. Essas irregularidades eram mais facilmente acobertadas em contextos de liquidez abundante. Na Europa, fica também o mau exemplo de países que deixaram de lado os imperativos do trabalho duro e da constante reinvenção. Ao integrarem um quadro comunitário, deram-se ao luxo da irresponsabilidade fiscal e da concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários não sustentados pela produtividade de suas economias. Para os emergentes, creio que a principal lição da crise ainda será aprendida. Para muitos deles a intervenção governamental e o capitalismo de estado triunfavam sobre o liberalismo como a grande crise de 2008. Infelizmente, o que deveria ser visto como ferramentas contracíclicas parece estar assumindo ares de verdade econômica. Exemplos disso são a política industrial brasileira centrada em conteúdo local e os incentivos ao consumo. Ambos atingiram seu limite. Creio que os emergentes também estão tendo de reinventar-se.

ZH -Alguns economistas brasileiros com frequência reclamam do excesso de regulação no sistema financeiro brasileiro, que impediria uma expansão de crédito e, no limite, um avanço maior da economia. Outros, porém, argumentam que essa é uma medida necessária para evitar uma crise como a americana. Quão importante é um sistema de regulação forte para evitar uma crise?

Troyjo - A regulação é importante e sem dúvida evita crises de endividamento de lares e empresas. O problema no Brasil não é o arcabouço jurídico em torno do mercado financeiro. A questão é a hipertrofia do Estado como poupador negativo e portanto como grande como tomador de empréstimos. Isso causa graves desequilíbrios e comparativamente menos capitas disponíveis para o financiamento da produção. Outra dificuldade emerge da baixa produtividade da economia brasileira. Temos estruturas fiscais e trabalhistas arcaicas, demasiada burocracia emperra as empresas e nosso investimentos em inovação quando examinados junto ao de outros países é muito pequeno. Assim, a baixa produtividade da economia deixa de oferecer um lastro sustentado ao longo do tempo para mais créditos.

ZH - Antes do colapso do Lehman Brothers, os Estados Unidos eram conhecidos como baluartes de uma política liberal. O que se viu, no entanto, é que o governo teve um papel crucial para salvar a economia. Passados esses cinco anos, há sinais de um novo posicionamento em relação a uma política de intervenção estatal ou a postura do governo aconteceu em um caso específico e o pensamento liberal se mantém intacto?

Troyjo - Creio que hoje poucos se opõem ao resgate que o Governo americano promoveu junto ao setor financeiro ou mesmo junto a tradicionais empresas automobilísticas de Detroit. Acho também que ninguém nega o papel de indução da inovação que o Governo dos Estados Unidos desempenha na formação da demanda por produtos de alta tecnologia, sobretudo a partir do robusto orçamento do Departamento de Defesa. No entanto, ao contrário de outros países, ninguém nos Estados Unidos defende para o Governo o papel de empreendedor, empresário ou acionista de companhias de capital misto. Com exceção do pensamento ultraconservador de alguns pequenos bastiões do Partido Republicano, a maioria concorda numa função governamental que inclui eventuais resgates além de induzir a inovação.

ZH - Com maior ou menor intensidade, o Brasil foi um dos tantos países que sentiu os impactos da crise estadunidense em 2008. Depois, quando o Fed colocou em prática as medidas de estímulo à economia, sofremos com o chamado "tsunami monetário". E agora com a simples possibilidade de retirada dos incentivos monetários sofremos mais uma vez. A impressão que dá é que o Brasil é um país que sofre quando os Estados Unidos entra em crise e sofre de novo quando os americanos se recuperam dela. É isso mesmo? O Brasil tem um sensibilidade maior em relação aos Estados Unidos ou essa fragilidade é comum a todos os países do Bric?

Troyjo - O que faz o Brasil mais ou menos suscetível a oscilações do nível internacional de liquidez é a baixa taxa de poupança interna como percentual (apenas cerca de 16%) do PIB. Assim, quando o dinheiro é no mundo é abundante e o real se valoriza, as exportações brasileiras perdem competitividade. Quando escasseiam os capitais internacionais já que as economias avançadas sinalizam aumento de juros, fica mais cara a obtenção de recursos para financiar nossa baixa capacidade de poupar e portanto de investir em infraestrutura. Outros países dos Brics, como a Índia e seu gigantesco e ineficiente setor público, também sentem dificuldades. Já a China, que se encontra no meio da lição-de-casa para tornar-se uma economia mais dinâmica, sofre menos. A China poupa mais de 40% de seu PIB, investe ainda mais que isso e ostenta US$ 3,7 trilhões de reservas cambiais. Fica portanto menos vulnerável à mudança de humores financeiros nos Estados Unidos.

ZH - A despeito do contexto internacional, alguns economistas afirmam que o momento cambial que o Brasil passa é mais reflexo de um real fraco do que de um dólar forte, na medida em que a desvalorização da moeda é mais forte aqui do que em outros países. Em que medida as contas internas brasileiras mais ajustadas poderiam tornar o país mais forte nesse cenário?

Troyjo - A recente tempestade que se abateu sobre o real alimentou-se de quatro fatores. A perspectiva de aperto monetário nos EUA, os megaprotestos de rua de junho, o afastamento do tripé macroeconômico — metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante — nos Anos Dilma e a incapacidade do Governo brasileiro nesses últimos 10 anos em promover reformas microeconômicas — tributos, trabalho e facilitação de negócios. Estou certo que os dois últimos fatores são mais importantes na determinação de um sentimento de ceticismo quanto ao Brasil do que os dois primeiros. Bastou o Governo dar sinais de que voltava ao "tripé" para que o real passasse a se revalorizar. Estou seguro de que quando o Brasil embarcar seriamente nas reformas econômicas os reflexos serão muito positivos seja para a moeda brasileira seja para o mercado de ações.

ZH - Depois de registrar um forte crescimento anos atrás, os países emergentes têm tido uma perceptível desaceleração econômica. A recuperação americana pode de alguma maneira alterar esse cenário? Os "bons tempos" para os países do BRIC terminaram?

Troyjo - É bom lembrar que a ideia de Brics emergiu nos últimos 10 anos como conceito relativo ao futuro da economia. Projeções que, turbinadas por sua demografia e expansão do PIB, mudariam o eixo dos mercados mundiais. Essas grandes nações alcançaram status de "usinas de crescimento". Ascenderam, já que nas últimas duas décadas conseguiram se adaptar exitosamente aos contornos cambiantes da economia global. Esses países foram capazes de trilhar caminhos alternativos de modo a que suas economias estivessem sempre ocupadas na produção de conteúdo local. O crescimento liderado por exportações da China; a expectativa dos benefícios de uma economia em transição para o mercado na Rússia; o empreendedorismo tecnológico e popular na Índia, e a "Substituição de Importações 2.0" do Brasil mantiveram a economia aquecida. Penso, contudo, que o futuro dos Brics residirá não tanto em como esses países de adaptam à economia, mas em como eles a moldam. Tal "transmutação econômica" implica que estes países evoluam da condição de eficientes "camaleões" — sobretudo mediante políticas industriais e de comércio orientados para a noção de conteúdo local — em direção a converterem-se em "vetores" de conhecimento e inovação. Essas nações perderão espaço na corrida pela competitividade no século 21 se fiarem-se tão-somente ao peso relativo de sua demografia e à noção de que a conjuntura internacional do último quarto de século — que permitiu sua ascensão — continuará a mesma nas décadas por vir

Por Cadu Caldas
Fonte: Zero Hora

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