Um olhar franco sobre o Brasil

Desde o berço, Stéphane Engelhard tem intimidade com relatos de países em situação de emergência. Ele nasceu na cidade de Caen, na Normandia, região do norte francês onde 19 anos antes as tropas aliadas haviam desembarcado para libertar a França do jugo nazista durante a II Guerra. Na juventude, na época de prestar o serviço militar obrigatório, optou pela alternativa de cumprir uma missão como civil a serviço de uma empresa francesa no Exterior. Até um mês antes de embarcar não havia sido informado para qual ponto do globo seria enviado. Em abril de 1988, chegou a um Brasil dividido pela esperança na nova Constituição, que seria promulgada seis meses depois (em 5 de outubro), e pela frustração de uma das mais tenebrosas crises da história recente da nação tropical. Mesmo tendo sido recepcionado por inflação anual de 980,21%, o jovem europeu se apaixonou pela nova terra, a começar por Fortaleza (CE), sua residência nos primeiros dois anos. Acabou constituindo família no Brasil, hoje é também cidadão brasileiro, assim como as duas filhas e o filho com idades entre seis e 12 anos. Quase três décadas depois de sua chegada, Stéphane, hoje vice-presidente de Assuntos Corporativos do Grupo Carrefour, membro da diretoria da Câmara Franco Brasileira e conselheiro de Comércio Exterior da França, vivencia mais um ciclo de turbulência do lado de cá do Atlântico, novamente partido entre a expectativa por reformas e o pesadelo na política e na economia. Nesta entrevista ao editor da VOTO, Altair Nobre, que aproveitou a presença do executivo no I Fórum VOTO A Mulher e o Poder, na IMED, em Porto Alegre, Stéphane compartilha o seu olhar sobre a trajetória brasileira e as perspectivas de superação dos dramas nacionais.

O Senhor começou a viver no Brasil em um dos piores momentos do país, o final dos anos 80.

Cheguei em abril de 1988, fiz uma escala em Brasília para registrar na embaixada a minha chegada. No dia seguinte peguei um avião para Fortaleza. Me apaixonei. Na época era uma cidade fantástica, bonita, tranquila, segura, tudo funcionando. Fiquei dois anos lá. Trabalhava para uma joint venture de franceses e brasileiros − os brasileiros eram majoritários, e a empresa francesa queria comprar mais uma parte do capital para se tornar majoritária. Foi interessante. No Brasil era a época do Plano Verão, hiperinflação, não tinha nada nos supermercados. Um inferno. Os franceses não entenderam bem como funcionava a empresa. Nem os brasileiros entendiam. Imagina um francês… Vim para ajudar a preparar essa compra de capital: eu era o francês na empresa brasileira, transmitindo as informações para que a operação pudesse acontecer. Não aconteceu. Fiquei dois anos. Eu poderia permanecer na empresa, mas não via essa situação econômica no Brasil se resolver. Decidi voltar para a França. Nesse meio tempo, eu me casei com uma brasileira. Fiquei seis anos como auditor financeiro na Deloitte, e quando voltei para cá me tornei brasileiro: em 1996 fiz o pedido, e em 1998 jurei à Bandeira, cantei o hino. Foi opção minha. Depois, eu me separei e dois anos depois me casei com a minha atual esposa, com quem tenho três filhos.

O Sr., que acompanhou o final dos anos 80, testemunha um novo ciclo dramático no país. Consegue enxergar um futuro para o Brasil?

Cheguei em 1988, num momento muito complicado do Brasil, mas sempre se falava que o Brasil era o país do futuro. Teve o impeachment do Collor no início dos anos 1990, a eleição de Fernando Henrique. Comecei a enxergar que esse futuro começava a se aproximar. Fui um otimista total do Brasil nessa época. Eu pensava que realmente o momento do Brasil estava chegando. O primeiro mandato de Fernando Henrique foi extraordinário. Não só ele, mas também a equipe que estava com ele na Presidência fez um trabalho fantástico. O ministro da Fazenda, o (Pedro) Malan, fenomenal. O segundo mandato não foi tão bom, pelos motivos políticos. O Congresso aqui é complicado, a gente sabe disso. É preciso fazer alianças, e como são muitos partidos complica. O presidente Fernando Henrique colocou o país nos trilhos. Em 2002, Lula foi eleito, eu ainda fiquei superotimista. Via uma democracia consolidada. Achava que o Brasil tinha o seu potencial para ser enfim realizado. É um mercado de 200 milhões de habitantes − a gente nunca pode esquecer isso. Não é uma Bélgica. Não querendo desprezar a Bélgica, mas é um país pequeno dentro da Europa. O Brasil é uma das grandes potências do mundo, e a gente começava a enxergar a realização desse potencial. A gente sabe como acabou. O presidente se reelegeu. Depois a Dilma se elegeu. Coisas que a gente pensava que não poderiam acontecer aconteceram. Não estou falando de um partido. Porque aparentemente não foi uma questão só de um partido. Parece que a gente regrediu. E, quando a gente olha a situação, é muito complicada. Hoje sou otimista ainda, mas eu achava que conhecia o país e descobri que eu não conhecia o país. É um país complicado de entender. Fiquei muito triste com a situação. Eu perdi a confiança no país durante um tempo. Mas eu vejo o potencial deste país. Vejo esses 207 milhões de potenciais consumidores. Isso é uma riqueza extraordinária − sem falar das riquezas naturais. Uma mão de obra fenomenal. O desafio hoje é a educação. Vejo isso todo dia. Você vai a um restaurante, ao supermercado, a qualquer lugar, tem gente com deficiência de educação. Confesso que eu balancei durante alguns meses, a ponto de pensar “Não consigo mais morar aqui”. Mas aos poucos − e não é a questão do novo governo − eu passei a olhar o potencial deste país. Enorme. Tem de realizar isso.

O Sr. tem filhos com nacionalidade brasileira e também francesa, em uma época em que muitos jovens planejam deixar o país por não enxergar futuro aqui. Como o senhor analisa isso?

É uma questão complicada. Você balança, mas realmente esse potencial oferece oportunidades extraordinárias aqui que em países estabilizados não existem mais − ou têm uma proporção muito menor. Isto é um ponto muito positivo para quem ficar aqui. A insegurança e as questões do dia a dia fazem com que você pense “É melhor que meus filhos deixem o país”, mas quando eu olho os dois lados vejo ainda o balanço mais positivo para a decisão de ficar aqui. Para eles. Não estou falando para mim, porque para mim está muito claro que eu fico. Para os meus filhos ainda há oportunidades enormes aqui, que não existem mais em países estabilizados, maduros em termos econômicos. Lá a competição é muito maior. Quem aqui tem boas ideias, uma boa educação, uma boa formação, a princípio, tem tudo para se dar bem. Isso não é mais suficiente lá. Você precisa ter um pouco de sorte.

A faxina da corrupção, antes mais restrita a políticos, está atingindo em cheio grandes empresas, corporações, indústrias com comércio global, como ocorreu na Operação Carne Fraca. Que impacto pode haver para o Brasil?

Vamos começar pela Lava-Jato: a operação não acabou, ainda vai se estender por um bom tempo, ninguém sabe quanto. A semana passada eu estive com o juiz Sérgio Moro em um evento fechado. Quando perguntado, ele disse exatamente isto: “Não sei”. O ponto é que tem de ir até o fim. É bom para o país, porque a corrupção é um problema aqui. Trabalhar em condições normais era muito complicado neste país, e todo mundo sabe disso. A operação deve corrigir isso. Não será fácil, porque estava muito entranhado na cultura. Durante anos foram favorecidas empresas que não necessariamente tinham condições competitivas, ou seja, a competição não era com as mesmas regras do jogo. A operação deve corrigir isso. Que bom! Ao mesmo tempo, gera muitas incertezas para o investidor estrangeiro. Eu vejo toda essa operação deflagrada em 2014 como absolutamente necessária, tem de ir até o fim. Já na Operação Carne Fraca houve, a meu ver, muita precipitação. A gente está falando de 4,8 mil frigoríficos, e 23 estão sob o holofote da Polícia Federal e do Ministério Público. Tem de ir até o fim, mas já prejudicou a economia do país, pelas exportações. Se houve alguma irregularidade, tem de punir. Não se pode abrir mão da punição, mas eu acho que a forma como foi liberada a informação foi muito generalizada. Isso não é bom. Não é porque você é suspeito que você é culpado. O povo brasileiro é muito calmo normalmente. Parece que isso está acabando. O povo brasileiro está cansado dessas histórias. Há um risco de turbulências sociais muito grandes com informações erradas. Fez algo errado, tem de ser punido. Mas cuidado para não generalizar. A gente sabe que às vezes há pessoas mal-intencionadas mas que não representam necessariamente o comando da empresa. Não sei avaliar, mas antes de culpar tem de ter certeza. As empresas estão sendo penalizadas. Inclusive, no Paraná, empresas já começaram a demitir.

As reações imediatas do Exterior, ao barrar a carne daqui, não mostram que a imagem do Brasil já está contaminada?

A gente fala muito da imagem do Brasil fora mas no fundo os europeus não sabem o que está acontecendo. Quem sabe é quem lê alguns jornais, a página 4 do Le Monde, por exemplo, que é lido pelas pessoas mais intelectualizadas. No fundo o povo vê o Brasil como o país de futebol, do potencial de que a gente falou, de festa, de gente feliz. Não abalou tanto, na minha opinião. Sobre a questão da carne, acho que os franceses nem sabem o que aconteceu. Os Estados e os governos, sim, pois tomaram essa decisão do embargo, e ao meu ver com razão: na dúvida… Acho que isso vai se resolver rapidamente. A China já desbloqueou. A França teve o mesmo problema dois ou três anos atrás com pratos cozidos industrializados. Em lugar de carne bovina, havia carne de burro, de cavalo… Todo mundo tem seus problemas. Tem de corrigir. Cometeu o erro, tem de ser punido. Justo. Mas cuidado para não generalizar. Na questão da imagem do Brasil para os europeus, não muda muito a visão dos europeus em relação ao Brasil. A camada mais intelectualizada dos franceses, assim como outros europeus, sabe que há uma questão política grave, mas é uma minoria. Imagina um chinês. Ele nem sabe que houve esse problema com a carne. O governo sabe, claro. Isso é temporário.

Em uma entrevista há três anos, em maio de 2014, o Sr. falou que a principal demanda do setor privado para investir no Brasil era a segurança jurídica. Mudou alguma coisa em relação a isso?

Participo das instituições da França no Brasil através de vários organismos. Isso persiste, sim, mas melhorou bastante. E, de fato, essa melhoria é ligada ao novo governo. Eu pessoalmente respeito todas as opiniões, mas o governo anterior trouxe bastante insegurança jurídica. Hoje está melhorando. Todas as reformas que o novo governo quer votar no Congresso vão nesse sentido: a trabalhista, a da Previdência, a tributária… Todas são positivas. Mas ainda é um assunto. O problema é como eu posso ter certeza de o que eu vou fazer não será questionado amanhã. O Malan falava “Até as coisas do passado podem mudar” (referência à frase “No Brasil, até o passado é incerto”, do ministro da Fazenda do governo FHC). Imagina o futuro? Para o meu lado europeu, há coisas difíceis de entender. Às vezes há decisões da corte suprema, o STF, que podem abalar o país. Não é a questão de se é justo ou não. Mas, de fato, economicamente, podem criar problemas. Há decisões favoráveis a empresas que podem afundar o governo federal, e o contrário: decisões que podem criar muitos problemas para empresas, quando a princípio a questão estava praticamente definida. Não vou dar exemplos porque não quero polemizar.

O Brasil, para o Carrefour, é um mercado muito importante. É o segundo, portanto só abaixo do francês. Qual é o plano do Carrefour para o Brasil?

É um país de 207 milhões de habitantes que, apesar das questões de instabilidade na política ou insegurança jurídica em certas ocasiões, não deixa de ser um mercado extremamente relevante. Quais são os países que têm 200 milhões de habitantes? Poucos. E com democracia. Apesar dos males, o Brasil é uma democracia. É um mercado que tem poder aquisitivo. É importante para nós. O ritmo de investimento durante a crise foi elevado e vai assim continuar nos próximos anos.

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