Legado pela vida

Uma tragédia levou o Jornalista, pai, mestre e colunista da Revista Voto, Róger Bitencourt, mas além do legado profissional, ele nos deixa a força pela luta em favor da valorização da vida

A perda trágica de Róger Bitencourt, jornalista, empresário e colunista da Revista Voto, atropelado por um motorista embriagado no dia 27 de dezembro de 2015, causou comoção e indignação. Às vésperas de completar 50 anos em 2016, Róger pedalava em uma manhã tranquila e ensolarada de domingo junto com um grupo de amigos. O trajeto naquele dia seria curto, nada comparado aos mais de 100 quilômetros costumeiros dos treinos. Mas foi curto demais. Na ciclofaixa da SC-401, uma das rodovias mais importantes de Florianópolis e que a cada dia tem sido cenário de mais e mais tragédias, sua energia pela vida e seu entusiasmo de menino foram levados para sempre.

Na edição de março/abril de 2015, a Voto trouxe uma reportagem com o título ‘Haja Folego’. À época, o texto falou de vida e energia, descrevendo como o jornalista gaúcho, radicado há quase 30 anos em Santa Catarina, conseguia conciliar uma rotina intensa como empresário de uma das maiores agências de comunicação do sul do País à paternidade e à prática de esportes, como as corridas de longa distância e o ciclismo.

Quase um ano depois, este texto trata de outro fôlego, aquele que, com muito esforço, está sendo renovado a cada nova manhã por familiares e amigos. A comoção pela perda de um personagem conhecido e querido em Santa Catarina e também a indignação pela forma abrupta da partida rendeu manifestações de grupos de ciclistas e entidades, além de uma cobertura da imprensa que ultrapassou as fronteiras estaduais.

Não é possível trazê-lo de volta, mas amigos e familiares desejam que sua morte não tenha sido em vão. Há a necessidade de debate urgente da sociedade para discutir os altos índices de imprudência nas estradas, a necessidade de vias seguras e penas menos brandas para quem dirige embriagado e faz do carro uma arma letal. Em janeiro último, outra vida foi perdida na mesma rodovia, também na ciclofaixa e próximo ao acidente do jornalista. Simoni Bridi, uma mulher de 28 anos e mãe de dois filhos, voltava de bicicleta do trabalho para casa e foi atropelada. O motorista fugiu sem prestar socorro.

Movimento pela Vida

 

Duas tragédias marcaram Santa Catarina em um curto período de tempo e levantaram um debate em prol da segurança no trânsito. Uma das iniciativas para discutir e chamar atenção da sociedade e poder público para o problema da falta de segurança para ciclistas nas estradas foi a criação, em Florianópolis, do Movimento pela Vida. Segundo André Ilha, amigo do Róger, companheiro no esporte e advogado, o Movimento surgiu e está sendo fomentado por pessoas que têm capacidade e interesse em propor medidas construtivas para a sociedade. O grupo ainda está no começo, mas o objetivo está definido: garantir as condições adequadas para o uso da bicicleta, cobrando a aplicação das leis e propondo alterações ou implementações que resultem na educação, na segurança e na conscientização de cidadania em Florianópolis.

“Na prática, queremos cobrar punição exemplar aos casos de acidentes de ciclistas no trânsito, identificar e estabelecer na cidade locais seguros para treinos de ciclismo e ainda estimular a sociedade e cobrar o poder público por mais fiscalização e blitz nas vias públicas. Buscamos identificar mudanças e melhorias nas ciclovias, ciclofaixas e ciclorotas, além da sinalização e condições das vias para o uso da bicicleta na cidade, e desenvolver um projeto modelo de educação e segurança no trânsito, enfatizando o uso da bicicleta” completa André.

Para o advogado, são vários fatores que causam tragédias como a de Róger, causadas pela mistura de álcool e direção. “É falta de educação, de fiscalização e também de punição, mas também há falta de infraestrutura adequada ao ciclista. Precisamos optar por qual caminho quer seguir a sociedade e trabalhar neste sentido! A punição é sempre o último remédio, temos que focar na cidadania em todos seus aspectos: educação, fiscalização e segurança”, destaca.

O presidente da Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC), juiz Odson Cardoso Filho, segue na mesma linha. A entidade garante o apoio a iniciativas e propostas que busquem valorizar a vida. “É fundamental que Justiça e sociedade estejam irmanadas no combate à violência no trânsito. Precisamos avançar em educação, conscientização, fiscalização e punição exemplar aos infratores se quisermos reduzir o número de mortes em nossas estradas”, acrescenta o magistrado.

Trajetória

“Urgência de viver e vencer”, quatro palavras que ilustram com uma clareza singular a trajetória do jornalista, empresário, pai, atleta e mestre Róger Bitencourt. A descrição, furtada da também jornalista Karin Verzbickas, sócia na Fábrica de Comunicação e companheira de vida há anos, traduz de maneira mais completa quem era o Róger. Incansável, apaixonado por futebol e pelo Esporte Clube Internacional, acreditava que dormir “era perda de tempo”, estava sempre a mil, com ideias e projetos para resolver situações e ajudar a clientes e amigos.

Deixou uma marca profunda e contribuição única na história da comunicação catarinense, além do legado característico de um mestre para aqueles que tiveram a oportunidade de trabalhar e aprender com ele. Formado em Jornalismo pela PUC-RS, foi chefe de reportagem e editor-chefe da RBS-TV e repórter, editor e subeditor-chefe do jornal Diário Catarinense. Trabalhou na Rádio Gaúcha e no Núcleo de Comunicação da Albarus S.A., ambos em Porto Alegre. Deu aula nos Cursos de Jornalismo da Univali (Itajaí) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi Secretário de Estado de Comunicação.

Há 17 anos, ao lado da Karin, fundou a Fábrica de Comunicação, um dos seus maiores orgulhos e referência em comunicação corporativa e soluções estratégicas de comunicação para empresas públicas e privadas. Era vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa (ACI) e diretor de Comunicação da associação FloripaManhã.

Texto de Ellen Sezerino, publicado originalmente na Revista Voto, edição de janeiro de 2016.

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