Molon Labe, venham pegá-las! Sim, as armas!

Por uma coincidência irônica, bem como trágica, do destino, o capitão da reserva Jair Messias Bolsonaro começou sua campanha política nas últimas eleições presidenciais pela cidade de Presidente Prudente, no interior de São Paulo. Ostentando sempre seu gesto característico, nada sereno, pouco prudente, com as mãos e braços, representando um fuzil disparando, Messias foi abatido por uma criminosa facada desferida por um certo Bispo, fora do juízo, na cidade de Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018.

Em 5 de novembro de 1897, outro Bispo fora do juízo, o anspeçada Marcellino Bispo de Mello, investiu com uma espada contra o presidente da República Prudente de Moraes. Anspeçada, aliás, era um posto militar da classe das praças, inferior ao cabo, um termo que vem do italiano lancia spezzata, significando literalmente “lança quebrada”, uma metáfora então usada para designar soldados experientes, que quebravam lanças em combate, donde voltavam vivos e cobertos de louros.

Prudente foi o terceiro presidente do Brasil e o primeiro civil eleito diretamente. O atentado ocorreu no Rio de Janeiro, no mesmo local onde hoje está o Museu Histórico Nacional, durante uma cerimônia militar, que recepcionava os batalhões vitoriosos que haviam finalmente destruído o irridente vilarejo de Canudos, no sertão baiano.

Os tempos eram de extrema polarização. Uma quartelada havia derrubado em novembro de 1889 a monarquia e determinado o ostracismo da família real brasileira. Desde então, o país atravessara novos golpes, instabilidade institucional sem precedentes, uma monumental crise econômica, governos militares e o estado de sítio. Uma excruciante guerra civil conflagrou os estados do Sul entre 1893 e 1895. Muita gente era perseguida, muito sangue correu.

O marechal Floriano Peixoto, sujeito autoritário e persecutório, entregara a Prudente o poder a contragosto. Nem mesmo o recepcionou em Palácio para passar a faixa presidencial. A sucessão era a contrapartida exigida pelos ricos oligarcas paulistas por terem apoiado e financiado a aventura do governo federal no Sul do Brasil, durante a sangrenta Revolução Federalista, que dizimou a oposição parlamentar ao modelo de república presidencial que então se pretendia.

Mas Floriano ainda usufruía de enorme popularidade nas ruas do Rio de Janeiro, entre jovens cadetes e o populacho. Eram os chamados jacobinos, que promoviam correrias e tropelias de toda a ordem, radicais sempre prontos a gritar palavras de ordem violentas, promover distúrbios, destruir reputações e construir inimigos simbólicos. A ameaça restauradora monárquica era então a grande vilã para esses jacobinos, que também não apreciavam os tre-le-lês dos políticos liberais no Parlamento.

1814 — by Jacques Louis David — Image by © The Gallery Collection/Corbis

Foi por isso que um ajuntamento de caboclos num simples vilarejo perdido no sertão da Bahia foi interpretado como uma potente e insidiosa sublevação monarquista, capaz de atingir o governo e trazer de volta o imperador. Tudo delírio, é claro, mas as pasquinadas sibilinas (junks e fake news da época) compraram a versão e, depois de várias incursões militares, o pobre núcleo, que seguia um líder milenarista, foi arrasado. Seus moradores chacinados, impiedosamente.

Enfermo, Prudente havia se afastado do governo para se submeter a uma cirurgia. O vice-presidente Manoel Vitorio, ligado aos florianistas, tentou dar um golpe, trocando o ministério. Não devolveria o comando. Sabedor da conjura, Prudente voltou do retiro em Teresópolis e reassumiu, sem avisar, o mandato, pegando a todos com as calças na mão. Mas, é claro, a relação com Vitorino e os florianistas jacobinos azedara de vez.

Prudente escapou ileso do famigerado atentado. Mas seu ministro da Guerra, o marechal Carlos Machado de Bittencourt, pereceu, defendendo a vida do presidente com o próprio corpo. O episódio causou enorme comoção. Prudente decretou novo estado de sítio e Manoel Vitorino chegou a ser incriminado na conspiração. Bispo foi encontrado enforcado na prisão um tempo depois. Vitorino se livrou da condenação, mas sua carreira foi destroçada.

Prudente, por sua vez, até então um líder adoentado e impopular, tornou-se subitamente um mártir. Graças a essa aura, conseguiu completar o mandato, com expressiva aprovação. O episódio acabou fechando o ciclo militarista que inaugurou a República, garantindo certa estabilidade ao novo sistema. E seu nome batizou até uma cidade, no interior de São Paulo.

Dentre os políticos presos acusados de envolvimento na conjura que ceifou a vida do marechal Bittencourt e quase aniquilou o presidente Prudente, estava o senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado. Afinal, as provas contra ele nunca foram conclusivas. Após deixar a prisão, converteu-se no mais influente articulador político daqueles tempos, conhecido como Senador de Ferro. Ele criou o Partido Republicano Conservador, um dos primeiros com características nacionais.

Por meio de suas cavilações, logrou eleger o marechal Hermes da Fonseca, que presidiu o Brasil entre 1910 e 1914. Na esteira do retorno dos militares ao poder, pela primeira vez eleitos pelo voto no Brasil, vieram as polêmicas salvações, que consistiam em intervenções nos governos dos estados. As ruas do Recife, por exemplo, viraram praça de guerra em 1911, com mortes, depredações e confrontos entre capangas privados e soldados do Exército. Salvador foi bombardeada em 1912, quando também em Fortaleza tiroteios de rua se rotinizaram. Enquanto isso, no oeste de Santa Catarina, cerca de 10 mil pessoas eram massacradas no Contestado, conflito desferido entre 1912 e 1917 e que, em grande medida, repetia a desventura de Canudos contra a população cabocla.

No auge da influência, Pinheiro pretendeu se candidatar à sucessão presidencial de 1914. Mas seus inimigos obstaram-no. De norte a sul, Pinheiro colecionava imenso rol desafetos, em razão de sua política agressiva, manipuladora e intervencionista. Grupos de populares o apupavam pelas ruas do Rio de Janeiro, aos gritos de “fora”, pedindo sua cabeça. Ao impor o nome do ex-presidente Hermes da Fonseca como senador pelo Rio Grande do Sul, preterindo o colega Ramiro Barcellos, foi quase linchado na porta do Senado por uma multidão enraivecida. Reza o anedotário que, nessa ocasião, teria soltado uma de suas expressões mais célebres, ao orientar o cocheiro que conduzia a carruagem em que viajava: “Nem tão devagar que pareça afronta, nem tão depressa que pareça medo”.

No dia 14 de julho de 1915, data em que se comemorava a Revolução Francesa, mas também a promulgação da Constituição do Rio Grande do Sul de 1891, um comício contra a candidatura Hermes da Fonseca promovido na Rua da Praia, em Porto Alegre, terminou em tragédia. A Brigada Militar, do governo de Borges de Medeiros, aliado de Pinheiro, para dissipar os manifestantes, espaldeirou e espingardeou a multidão, produzindo nove mortes e muitos feridos. Dentre as vítimas fatais estava o estudante de medicina Josino de Vasconcellos Chaves, jovem de família de elite, o que consternou a cidade. Instaurou-se um inquérito, presidido pelo desembargador Armando Azambuja, também nomeado chefe interino de polícia até a sentença, em substituição. Concluiu-se que a responsabilidade pelos fatos recaía sobre os populares, inocentando a força pública, que teria agido em legítima defesa, sem ordem de carregar armas, nem de disparar.

Em outra ironia trágica do destino, em 8 de setembro de 1915, Pinheiro Machado, que havia sido acusado de ajudar a armar o braço de Marcellino Bispo contra Prudente de Morais, foi apunhalado nas costas pelo padeiro Manso de Paiva, ao chegar ao Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, onde fora visitar um político paulista. Manso de Paiva deixou-se prender pela polícia e sustentou até o final ter agido sozinho. Cumpriu 20 anos de prisão. Aos 79 anos de idade, em 1965, morando em um subúrbio carioca, declarou em entrevista ao Jornal do Brasil: “Não fui eu quem matou Pinheiro Machado. Foi a paixão de uma época. Fui um patriota que deixou se arrebatar pelo ódio que sentia pelo homem que havia, dias antes, assassinado estudantes indefesos nas praças de Porto Alegre. Alguém deveria vingar aquelas mortes… Foi tudo por paixão política.” O punhal que usou para ceifar a vida do vice-presidente do Senado, condestável da República, encontra-se exposto no Museu do Catete, no Rio de Janeiro, invocando os traumas dos tempos sinistros do antagonismo político no Brasil.

No dia 7 de setembro de 2018, véspera em que se completariam exatos 103 anos do infortúnio de Pinheiro, a capa do jornal O Estado de São Paulo reproduzia foto com o então candidato Jair Bolsonaro, clicada instantes após o atentado. Na imagem dramática, o capitão da reserva, acudido por seguranças e apoiadores, carrega uma expressão crispada, de dor. No antebraço de um dos homens que o ampara, estampa-se uma tatuagem com os dizeres ΜΟΛΩΝ ΛΑΒΕ, ou melhor, μολὼν λαβέ.

Molon Labe, em grego, significa “venham pegá-las”. Foi a desafiadora resposta do Rei Leônidas ao emissário do imperador persa Xerxes que exigiu a deposição das armas pelos aguerridos espartanos. Os melhores soldados da Grécia resistiram, então, por três dias, ao maior exército do mundo, na épica batalha das Termópilas, em 480 a.C. Foram dizimados, mas infringiram severos danos aos persas e retardaram o seu avanço por território heleno.

A frase está em Plutarco [Frases lacônicas 225d (51.1)] e o diálogo é retratado no filme “300”, estrelado por Gerard Butler e Rodrigo Santoro. É até hoje símbolo de heroísmo, obstinação, senso de missão, desprendimento, resistência e masculinidade. É um ícone do militarismo. É uma espécie de brado simbólico que resistiu se opondo à oração fúnebre do líder ateniense Péricles, de 430 A.C., que saudava a memória dos soldados abatidos na luta contra Esparta. A oração, reproduzida por Tucídides, em “A Guerra do Peloponeso”, matizou a exaltação do modelo ateniense, demonizando o espartano. Mas Esparta, com suas características castrenses, frugais, missionárias e hierárquicas, seguiu se diferenciando simbolicamente da democrática Atenas, que, com sua arte e sua filosofia de transcendência humanista parecia aos espartanos efeminada e decadente. Mais recentemente, no Brasil, os desafiadores dizeres em grego tornaram-se ainda divisa para a campanha contra o desarmamento e a favor da liberação do porte de armas.

VISÃO | GUNTER AXT

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