Crise e oportunidade do Centro

Nos tempos da insanidade geral e coletiva das redes sociais, que produz um debate raso sobre qualquer assunto e, por consequência, gera uma completa radicalização das opiniões, o centro político — me refiro aqui ao posicionamento conceitual e ideológico que se localiza entre a esquerda e a direita — sumiu.

O resultado eleitoral de 2018 mostra bem isso. Candidaturas de partidos musculosos e tradicionais (caso de Meirelles, do MDB), por vezes sustentadas por alianças gigantescas (como foi o caso de Alckmin, do PSDB) nem chegaram perto do segundo turno. Nos parlamentos, salvo raras exceções, as bancadas das legendas “centristas” encolheram, em alguns estados quase desapareceram.

Os partidos moderados foram, dada a estratégia eleitoral vitoriosa de setores que os atacaram e colaram neles a pecha de “velha política”, a “Geni” das eleições passadas. Nada mais elementar em um País dividido e radicalizado.

Ou a opinião de fulano é extremada ou ela não vale nada. Ou você é a favor do que a onda da vez “pensa”, ou você é contra e deve ser varrido. Moderação nesse cenário? Coisa da velha política. Ponderar, percebendo ideias boas em cada um dos lados? Inimigo mortal.

Por outra ótica, poderíamos afirmar também que, ao analisarmos os erros cometidos por este campo, ele foi sendo desgastado cronicamente, vítima do próprio sistema que acabou construindo: o presidencialismo de coalizão. Com 30 partidos no Congresso Nacional, não há presidente da República que consiga governar sem as bancadas centristas. E, ao se obrigar a governar com elas, reforçará nas mesmas a imagem de fisiologismo.

Com o recorrente apoio e participação do centro em todos os governos, não é para menos que grande parte das insatisfações da população com o status quo da política tenha sido canalizada neste grupo de partidos.

Há, portanto, uma “crise do centro” no Brasil.

A grande mídia, que inicialmente tanto incentivou o movimento de radicalização da política, hoje, assustada com seus efeitos na sociedade e nela própria — já que todos os dias perde mais audiência para novos meios de comunicação, às vezes pouco confiáveis — , agora clama por mais moderação.

Após os primeiros cem dias dos governos eleitos, a possibilidade do retorno do centro começa a ganhar espaço.

É claro, radicalizar opiniões pode ser muito produtivo para ganhar eleições, ao menos em determinados momentos históricos. Mas sempre será improdutivo para governar e legislar, ao menos em uma democracia.

Precisamos, portanto, reorganizar o centro. Mas, como fazê-lo?

Antes de mais nada é fundamental perceber que, em que pese a hecatombe que atingiu o campo centrista no Brasil, temos, agora, uma grande oportunidade. Sim, porque a sua crise sepultou antigas lideranças e abriu espaço para o surgimento de outras, o que pode significar um fôlego novo ao movimento. Mais: nas décadas pós-Guerra Fria, muitos haviam concluído que os conceitos de “direita” e “esquerda” já não mais existiam. Ledo engano, como bem demonstra o momento atual.

Com a demarcação sobre o que defende a esquerda e a direita, fica mais claro perceber o que seria um meio-termo possível e apropriado à realidade brasileira. Nessa janela de oportunidades que surge, cria-se um ambiente favorável para definirmos o que e como pensam os moderados. Afinal, quais políticas resultariam e quais seriam os objetivos de um programa centrista?

Mais do que isso, é hora de debatermos e definirmos posições sobre temas indigestos para um campo que é moderado por essência e, talvez por isso, tradicionalmente tergiversou sobre questões polêmicas, como por exemplo: tamanho ideal e função social do Estado, propriedade privada, direitos civis, liberdade de imprensa e segurança pública.

Indigestos, mas fundamentais. É possível ser moderado e ter posicionamentos claros sobre temas polêmicos. Em um ambiente radicalizado como o atual, não se posicionar é sacramentar precocemente a morte política desta corrente de pensamento. E, como já percebemos, isso não é bom para o Brasil.

Tarefa urgente, definir políticas e posições centristas não é tão fácil como parece. Isto porque, neste campo, estão diversos setores da sociedade que simpatizam parcialmente com várias das ideias dos extremos. Devido a isso, podem se desentender nos conceitos pretendidos.

Um dos desafios é fugir da subjetividade que nos cerca. Ao tentar definir, por exemplo, qual o tamanho ideal do Estado, o centro tem, por razões óbvias, mais dificuldades do que a direita liberal e a esquerda estatista. Por outro lado, o centrismo é democrático por essência e isso pode ser fator de aglutinação política para fortalecer ideias em comum.

Como podemos perceber, teremos muitos desafios para serem vencidos no percurso. Mas, o que realmente importa é que, agora, mais do que nunca, o Brasil precisa do ressurgimento do centro na cena política nacional. Não apenas para exercer a necessária moderação nas opiniões, mas também para propor soluções que façam o Brasil avançar e desenvolver-se em um ambiente de paz e prosperidade social.

Por Gabriel Souza, deputado estadual (MDB/RS)

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